31 de mar de 2011

Uma infância apagada...



foto da casa dos meus avós, antes de ser demolida



...Saudade é amar um passado que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida...
Pablo Neruda

Era quase meio dia quando resolvi ir caminhar sem rumo certo, sozinha, embaixo de sol quente. Eu precisava de algumas horas a sós com os meus pensamentos, precisava me reencontrar naquele lugar, precisava sentir o que há muitos anos eu não sinto mais quando eu retorno ao velho Junco. Eu necessitava resgatar algo que ficou perdido, presente apenas nas minhas lembranças.
Eu estava ali, mas parte de mim, não. Faltava algo, havia um espaço, um vazio. O que era para me trazer alegria se transformava em uma tremenda tristeza: Olhar toda aquela cidade e não ver nada, nada do que meus olhos queriam ver.
Continuei caminhando... A saudade apertava o meu peito: Saudade de outrora, daquela menina cheia de sonhos, correndo por aquela estrada, passando embaixo de cercas de arames farpados, se embrenhando no meio dos matos, para pegar caju e umbu nas roças alheias.
Continuei a caminhar e comigo a dor e o descontentamento de olhar tudo em minha volta e não encontrar o que deixei quando partir: A imagem da minha infância.
Tudo mudou: O asfalto cobre o cascalho e o barro que, quando chovia  enlameava minha roupa a caminho da escola, o que era pastos verdejantes cheios de gado, está cheios de casas. Até o cruzeiro já não é mais o mesmo, não aquele que ficava em cima de um pequeno monte onde eu, ainda uma criança subia até lá para ver os bonecos de barro feito pelos pagadores de promessas ou para me esconder do gado tangido pelos vaqueiros que os levavam para o curral no Matadouro para serem abatidos e sua carne ser vendida na segunda-feira.
Toda aquela paisagem já não existe mais. O progresso desfez um retrato de minha infância.
Subo a ladeira de Coló (era assim que chamavam na minha época), vou até o mais alto, sento e observo a roça que era do meu avô, vejo o tanque de barro, ao lado a imensa árvore de tronco grosso e entrelaçado, que ele chamava de “Pé de caixão”. A casa já não existe mais, foi demolida, mas a árvore que ficava em frente dela continua lá sobrevivendo ao tempo.
Fixo meu olhar como se eu quisesse encontrar algo e volto no tempo:

Embaixo do avarandado está meu avô, sentado em um banco velho de madeira, vestia um jaleco de couro encardido, suas roupas eram velhas, surradas pela lida na roça e na cabeça um chapéu baeta. Ele observava suas vacas magra, sua égua branca e reclama da seca:

-“Vigeee lástima! Deus está castigando está terra”.

Minha avó está separando a lenha, com sua veste preta, parece que vive em um luto interminável. Era seis horas da tarde e ela vai para trás da casa rezar a ave Maria, como de costume ela fazia isso todos os dias, depois ia acender às velinhas para São Cosme e São Damião, seus santos de devoção.
Minha mãe desce ao tanque com os caldeirões na mão para buscar água antes que a noite chegasse, ela tinha medo de encontrar alguma cobra pelo caminho.
No terreiro, meu irmão e eu brincávamos, subíamos na árvore, em cima do carro de boi do nosso avô, corríamos pelo pasto, pulávamos amarelinha...
Anoitecia. Na calada da noite os sapos grunges, a cigarra canta a cobra pia, lá fora se via apenas as luzes dos vaga-lumes. Em casa, a luz do candeeiro iluminava a sala e na cozinha a lenha estalava no fogão.
Hora da voz do Brasil: meu avô desliga seu rádio de pilhas e começa a contar histórias de sua mocidade, dos tempos difíceis de muita seca, eu adorava, mas quando ele começava falar sobre visagens, meu irmão e eu tremíamos e era um tormento para ir dormir.
Pela manhã meu avô ia ordenhar as vacas. Eu sentia o cheiro do leite fervendo no fogão de lenha. Aromas inconfundíveis e saudosos, uma mistura completa, aromas da terra, de um sertão esquecido, cheiro do meu velho Junco de outrora: Aroma de café fresquinho, terra molhada pelo orvalho da manhã, fumaça da lenha queimada...
Meu avô depois que chegava do curral com o leite ia dar milhos as galinhas:

-Ti, ti, ti... – Ele as chamava. – Ti, ti, ti... – Elas vinham.

O cheiro de cuscuz despertava a minha fome e eu pulava da cama ainda sonolenta. Meu avô dizia com toda sua calma e mansidão:

- Vigeee! Já levantou? Que milagre!- Eu odiava acordar cedo.

Minha avó já era mais agitada, cantarolava e dançava pela sala:

“Ohhh Lena! ohhh Lena! ohhh Leninha!”

Ela me chamava de Lena. Toda aquela exaltação tinha um motivo:

 - “Oh Lena, escreve a carta pro Zé?”- Zé, era um dos seus filhos que morava em São Paulo.

Foram bons tempos, mesmo sendo anos difíceis de minha vida, há do que se rir, há do que se chorar, há do que se esquecer e há do que se lembrar.

Ainda sentada na ladeira de Coló, fecho meus olhos, levo minhas mãos à cabeça e a seguro firme, desconsolada, a dor e a saudade que ainda apertava meu peito fizeram lágrimas rolarem em meu rosto e, em soluços eu sussurro baixinho:

- “Meus queridos avós, como eu queria que vocês estivessem aqui comigo! Que saudade, que saudade”.

Levanto, desço a ladeira e vou em direção à estrada que leva ao açude, chegando lá me deparo mais uma vez com o progresso desfazendo mais um retrato de minha infância. O que servia para matar a sede do gado, dos animais em geral e de toda uma gente que sofria por falta d’água na época de seca, hoje está virando uma área lazer, aquele lago imenso cheio de vegetação que meu avô dizia que, servia para afinar a água, logo estará cheio de dejetos humanos. O que antes cheirava a natureza, logo estará fedido como os banheiros químicos da cidade em época de festa. Vejo o progresso destruindo um patrimônio da natureza fértil e útil. Com tanta obra necessária para a cidade, querem fazer do açude uma praia ou mar do sertão. E com toda violência que ronda a cidade e com pouco policiamento, imaginem o que pode acontecer nessas estradas longas que levam até o açude! Uma nova geração está sendo formada e o nosso Velho Junco ficará apenas nas nossas lembranças, nas lembranças dos mais velhos que, mesmo com toda simplicidade poderia ter um pouco de paz.

Reencontrei-me em minhas lembranças, consegui voltar no tempo e tive a visão do que ficou para trás e a certeza de que, quando eu voltar à cidade de Sátiro Dias, faltara algo: O Aroma, o gosto, o som e toda sua essência que lhe deu origem.
Já perto de voltar a São Paulo e dar adeus às minhas férias, no ultimo dia de festa religiosa, fui a missa pela manhã, não que eu goste de missa, não tenho muita paciência, mesmo eu ter sido criada no catolicismo pela minha mãe, mas este dia eu quis acompanhá-la. Eu chorei muito durante a missa, fiquei até sem jeito, pois muitos curiosos me observavam tentando entender o que estava acontecendo comigo, nunca iam entender, pois a dor e a tristeza, era só minha, senti uma tristeza, um desconsolo uma frustração, um vazio sem explicação, uma sensação de que o Junco não existe mais.
Não sou contra o progresso e o desenvolvimento de uma cidade, desde que ela não perca sua essência e sua característica.
No dia que eu partir de volta a São Paulo eu parei, olhei para trás e vi que minha infância foi apagada. O sentimento que tive foi o mesmo de uma turista que chegou à cidade pela primeira vez e que saiu decepcionada. Eu esperava mais.
Sinceramente, não sinto mais vontade de voltar, a não sere pelos meus pais, amigos e família.

Ouvindo: Deus e eu no sertão ( Vitor e Léo) :





PS:

Apesar de todo progresso, conceitos e padrões atuais
Sou do tipo que na verdade sofre por amor e ainda chora de saudades
(Roberto Carlos)


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31 de mar de 2011

Uma infância apagada...



foto da casa dos meus avós, antes de ser demolida



...Saudade é amar um passado que ainda não passou,
É recusar um presente que nos machuca,
É não ver o futuro que nos convida...
Pablo Neruda

Era quase meio dia quando resolvi ir caminhar sem rumo certo, sozinha, embaixo de sol quente. Eu precisava de algumas horas a sós com os meus pensamentos, precisava me reencontrar naquele lugar, precisava sentir o que há muitos anos eu não sinto mais quando eu retorno ao velho Junco. Eu necessitava resgatar algo que ficou perdido, presente apenas nas minhas lembranças.
Eu estava ali, mas parte de mim, não. Faltava algo, havia um espaço, um vazio. O que era para me trazer alegria se transformava em uma tremenda tristeza: Olhar toda aquela cidade e não ver nada, nada do que meus olhos queriam ver.
Continuei caminhando... A saudade apertava o meu peito: Saudade de outrora, daquela menina cheia de sonhos, correndo por aquela estrada, passando embaixo de cercas de arames farpados, se embrenhando no meio dos matos, para pegar caju e umbu nas roças alheias.
Continuei a caminhar e comigo a dor e o descontentamento de olhar tudo em minha volta e não encontrar o que deixei quando partir: A imagem da minha infância.
Tudo mudou: O asfalto cobre o cascalho e o barro que, quando chovia  enlameava minha roupa a caminho da escola, o que era pastos verdejantes cheios de gado, está cheios de casas. Até o cruzeiro já não é mais o mesmo, não aquele que ficava em cima de um pequeno monte onde eu, ainda uma criança subia até lá para ver os bonecos de barro feito pelos pagadores de promessas ou para me esconder do gado tangido pelos vaqueiros que os levavam para o curral no Matadouro para serem abatidos e sua carne ser vendida na segunda-feira.
Toda aquela paisagem já não existe mais. O progresso desfez um retrato de minha infância.
Subo a ladeira de Coló (era assim que chamavam na minha época), vou até o mais alto, sento e observo a roça que era do meu avô, vejo o tanque de barro, ao lado a imensa árvore de tronco grosso e entrelaçado, que ele chamava de “Pé de caixão”. A casa já não existe mais, foi demolida, mas a árvore que ficava em frente dela continua lá sobrevivendo ao tempo.
Fixo meu olhar como se eu quisesse encontrar algo e volto no tempo:

Embaixo do avarandado está meu avô, sentado em um banco velho de madeira, vestia um jaleco de couro encardido, suas roupas eram velhas, surradas pela lida na roça e na cabeça um chapéu baeta. Ele observava suas vacas magra, sua égua branca e reclama da seca:

-“Vigeee lástima! Deus está castigando está terra”.

Minha avó está separando a lenha, com sua veste preta, parece que vive em um luto interminável. Era seis horas da tarde e ela vai para trás da casa rezar a ave Maria, como de costume ela fazia isso todos os dias, depois ia acender às velinhas para São Cosme e São Damião, seus santos de devoção.
Minha mãe desce ao tanque com os caldeirões na mão para buscar água antes que a noite chegasse, ela tinha medo de encontrar alguma cobra pelo caminho.
No terreiro, meu irmão e eu brincávamos, subíamos na árvore, em cima do carro de boi do nosso avô, corríamos pelo pasto, pulávamos amarelinha...
Anoitecia. Na calada da noite os sapos grunges, a cigarra canta a cobra pia, lá fora se via apenas as luzes dos vaga-lumes. Em casa, a luz do candeeiro iluminava a sala e na cozinha a lenha estalava no fogão.
Hora da voz do Brasil: meu avô desliga seu rádio de pilhas e começa a contar histórias de sua mocidade, dos tempos difíceis de muita seca, eu adorava, mas quando ele começava falar sobre visagens, meu irmão e eu tremíamos e era um tormento para ir dormir.
Pela manhã meu avô ia ordenhar as vacas. Eu sentia o cheiro do leite fervendo no fogão de lenha. Aromas inconfundíveis e saudosos, uma mistura completa, aromas da terra, de um sertão esquecido, cheiro do meu velho Junco de outrora: Aroma de café fresquinho, terra molhada pelo orvalho da manhã, fumaça da lenha queimada...
Meu avô depois que chegava do curral com o leite ia dar milhos as galinhas:

-Ti, ti, ti... – Ele as chamava. – Ti, ti, ti... – Elas vinham.

O cheiro de cuscuz despertava a minha fome e eu pulava da cama ainda sonolenta. Meu avô dizia com toda sua calma e mansidão:

- Vigeee! Já levantou? Que milagre!- Eu odiava acordar cedo.

Minha avó já era mais agitada, cantarolava e dançava pela sala:

“Ohhh Lena! ohhh Lena! ohhh Leninha!”

Ela me chamava de Lena. Toda aquela exaltação tinha um motivo:

 - “Oh Lena, escreve a carta pro Zé?”- Zé, era um dos seus filhos que morava em São Paulo.

Foram bons tempos, mesmo sendo anos difíceis de minha vida, há do que se rir, há do que se chorar, há do que se esquecer e há do que se lembrar.

Ainda sentada na ladeira de Coló, fecho meus olhos, levo minhas mãos à cabeça e a seguro firme, desconsolada, a dor e a saudade que ainda apertava meu peito fizeram lágrimas rolarem em meu rosto e, em soluços eu sussurro baixinho:

- “Meus queridos avós, como eu queria que vocês estivessem aqui comigo! Que saudade, que saudade”.

Levanto, desço a ladeira e vou em direção à estrada que leva ao açude, chegando lá me deparo mais uma vez com o progresso desfazendo mais um retrato de minha infância. O que servia para matar a sede do gado, dos animais em geral e de toda uma gente que sofria por falta d’água na época de seca, hoje está virando uma área lazer, aquele lago imenso cheio de vegetação que meu avô dizia que, servia para afinar a água, logo estará cheio de dejetos humanos. O que antes cheirava a natureza, logo estará fedido como os banheiros químicos da cidade em época de festa. Vejo o progresso destruindo um patrimônio da natureza fértil e útil. Com tanta obra necessária para a cidade, querem fazer do açude uma praia ou mar do sertão. E com toda violência que ronda a cidade e com pouco policiamento, imaginem o que pode acontecer nessas estradas longas que levam até o açude! Uma nova geração está sendo formada e o nosso Velho Junco ficará apenas nas nossas lembranças, nas lembranças dos mais velhos que, mesmo com toda simplicidade poderia ter um pouco de paz.

Reencontrei-me em minhas lembranças, consegui voltar no tempo e tive a visão do que ficou para trás e a certeza de que, quando eu voltar à cidade de Sátiro Dias, faltara algo: O Aroma, o gosto, o som e toda sua essência que lhe deu origem.
Já perto de voltar a São Paulo e dar adeus às minhas férias, no ultimo dia de festa religiosa, fui a missa pela manhã, não que eu goste de missa, não tenho muita paciência, mesmo eu ter sido criada no catolicismo pela minha mãe, mas este dia eu quis acompanhá-la. Eu chorei muito durante a missa, fiquei até sem jeito, pois muitos curiosos me observavam tentando entender o que estava acontecendo comigo, nunca iam entender, pois a dor e a tristeza, era só minha, senti uma tristeza, um desconsolo uma frustração, um vazio sem explicação, uma sensação de que o Junco não existe mais.
Não sou contra o progresso e o desenvolvimento de uma cidade, desde que ela não perca sua essência e sua característica.
No dia que eu partir de volta a São Paulo eu parei, olhei para trás e vi que minha infância foi apagada. O sentimento que tive foi o mesmo de uma turista que chegou à cidade pela primeira vez e que saiu decepcionada. Eu esperava mais.
Sinceramente, não sinto mais vontade de voltar, a não sere pelos meus pais, amigos e família.

Ouvindo: Deus e eu no sertão ( Vitor e Léo) :





PS:

Apesar de todo progresso, conceitos e padrões atuais
Sou do tipo que na verdade sofre por amor e ainda chora de saudades
(Roberto Carlos)


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